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Um modelo de negócios chamado Economia da Comunhão

Um modelo de negócios chamado Economia da Comunhão

Os empresários assumem o desafio de priorizar as pessoas e não os lucros. Assim, demitir para reduzir custos não faz parte da cartilha desses capitalistas

Por Inácio França

Recife – Em dois polos empresariais brasileiros, as palavras competitividade e produtividade aparecem sempre acompanhadas de outros termos pouco comuns ao ambiente corporativo: ética, justiça social e, para compor a rima, fraternidade. Nos municípios de Vargem Grande Paulista, em São Paulo, e Igarassu, em Pernambuco, estão os dois polos brasileiros da Economia da Comunhão, modelo de negócios criado em 1991 pela professora e religiosa italiana Chiara Lubich, fundadora do movimento ecumênico Focolare.

solidare-polo produtivo economia de comunhãoAs empresas da Economia de Comunhão se comprometem a destinar parte de seus lucros para financiar projetos capazes de gerar renda e reduzir a desigualdade social, além de formar pessoas para a “cultura da partilha”.

Esses empresários assumem o desafio de investir sempre na própria empresa para abrir continuamente novos postos de trabalho. Ou seja, demitir para reduzir custos não faz parte da cartilha desses capitalistas.

Em Pernambuco, a gerente administrativa do Polo Ginetta, Maria Auxiliadora Marques, garante que não há qualquer contradição entre os lucros e a ética:

“Nossas empresas, assim como qualquer outra do mercado, vivem os desafios cotidianos de um ambiente competitivo e pleno de incertezas. Elas não são beneficiadas por qualquer tipo de incentivo governamental. O diferencial é a forma como estas atuam, com ética e responsabilidade social, buscando uma gestão na qual o ser humano é o elemento central”, diz.

E acrescenta: “Embora não sejam estas as principais motivações desse agir, ele muitas vezes é o fator responsável pela fidelidade de um cliente, a abertura de um novo mercado ou a maior motivação dos funcionários, por exemplo.”

Alguns indicadores apresentados por Maria Auxiliadora parecem demonstrar que a fórmula está dando certo no polo de Igarassu, uma sociedade anônima criada em 2002 com o capital de 113 acionistas. Doze anos depois, o número de investidores foi multiplicado por 10: agora são 1.100 investidores.

“Adotamos o modelo S.A. porque possibilita a participação de vários investidores com um pequeno capital. Chiara, a fundadora do movimento dos focolares, ao propor a EdC dizia: ‘Somos pobres, mas somos muitos’. Assim o fizemos, constituindo o capital de muitos que investem pouco”.

COMO UM DISTRITO INDUSTRIAL

Os polos são um agrupamento de empresas e iniciativas que pagam aluguel para se instalar no espaço semelhante a um pequeno distrito industrial. A receita de aluguel, por sinal, ajuda a garantir a sustentabilidade financeira a cada polo.

É bem verdade que as empresas contam com serviço de portaria, câmeras nas áreas comuns, internet, comunicação por ramais internos, sala de reunião, refeitório e auditório, porém um dos maiores atrativos é a participação em uma rede mundial, formada por centenas de empresas em outros polos da EdC em 182 países (apesar de existirem apenas mais seis polos semelhantes).

O polo oferece a possibilidade de as empresas fecharem negócios entre si e consultoria empresarial especializada para que isso aconteça.

Em Igarassu, são oito empresas, uma indústria de móveis planejados, uma empresa de comercialização e distribuição de granito e outras seis do setor de serviços, inclusive da tecnologia da informação. Uma dessas empresas, a Movelite, emprega ex-dependentes de drogas e ex-presidiários.

BALANÇO GLOBAL

Em 2013, a Economia da Comunhão compartilhou 980 mil euros em lucros (pouco mais de R$ 3 milhões), que financiam projetos de geração de renda principalmente no Brasil, Bolívia e Filipinas.

De acordo com o balanço global apresentado no início deste ano, as empresas que mais contribuíram (ou seja, as que mais lucraram) para que a partilha de lucros aumentasse 27% em relação a 2012 estão sediadas na Argentina, Bélgica, Itália, Irlanda, Polônia, Portugal, Eslovênia, Eslováquia, Coreia do Sul, Costa do Marfim, República Democrática do Congo e Uruguai.

Além da partilha de lucros, as empresas também dividem os custos dos cursos de formação de jovens, congressos internacionais e workshops que divulgam a cultura de comunhão e de partilha pelo mundo.

PARA FAZER PARTE

Para ser aceito num dos polos da Economia da Comunhão, o empresário precisa ignorar solenemente o que dizem os manuais que pregam o lucro e a competição a qualquer custo.

Um documento interno chamado Linhas – guia para conduzir uma empresa de Economia de Comunhão impõe (imposição, na verdade, não é uma palavra que se encaixa bem nesse modelo de negócio) procedimentos administrativos e uma política de recursos humanos que chegam a ser óbvios para quem espera contribuir para “formar novos homens”, como insiste Maria Auxiliadora.

As empresas desses polos não devem esquecer completamente o capital, mas esse não deve ser o seu principal foco. O centro da EdC está na pessoa humana.

Em vez de reduzir os custos trabalhistas, terceirizar e demitir, as empresas precisam investir com prudência e buscar estratégias inovadoras para criar atividades geradoras de emprego. O respeito aos sindicatos e aos acordos de trabalhos é imprescindível.

A consequência direta é um ambiente de trabalho de ajuda mútua, de respeito e de confiança.

ÉTICA E RESPEITO ÀS LEIS

A pregação quase fanática para estimular a competição quase fanática entre os funcionários não existe nessas empresas, onde os talentos, ideias e capacidades estão à disposição tanto do crescimento da empresa quanto do desenvolvimento profissional dos colegas.

No relacionamento com os clientes e consumidores, a tônica é a mesma. A empresa precisa oferecer bens de qualidade e serviços úteis a preços justos.

Nada de procurar o contador para dar um “jeitinho” contábil e pagar menos impostos. O empresário que adotar a EdC tem de respeitar as leis e manter um comportamento eticamente correto perante o fisco.

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