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Em vez de reais, palmas

Em vez de reais, palmas

Primeiro banco comunitário brasileiro, o Banco de Palmas, criado em 1998 na periferia de Fortaleza (CE), é modelo para os demais existentes no País. Tem uma moeda própria, a Palmas, que movimenta a economia no Conjunto Palmeiras e em mais dez bairros da região.

Por Isaura Daniel

Em uma região da periferia de Fortaleza, no Ceará, é possível ir ao supermercado fazer compras sem levar cartão de crédito, de débito ou reais.

Ali eles têm uma moeda própria, uma moeda solidária que pode ser utilizada apenas no comércio local. Ela se chama Palmas e é responsável por movimentar a economia do Conjunto Palmeiras e arredores e impedir que o dinheiro dos moradores gere riqueza apenas nas áreas centrais da capital cearense.

“Descobrimos que 97% do que a população comprava vinha de fora do bairro. A gente se empobrece ao comprar fora”, afirma Joaquim de Melo, coordenador do Instituto Palmas, que tem como um dos seus braços o Banco Palmas, que opera a moeda social.

solidare - banco palmas joaquimO banco trabalha para estimular a produção e o consumo no Conjunto Palmeiras e mais de dez bairros no entorno. O instituto também trabalha no fomento a bancos solidários Brasil afora.

O Banco Palmas foi o primeiro banco comunitário do Brasil e pertence à comunidade em que atua. O que está por trás da atuação é o raciocínio de que se o bairro consumir o que ele próprio produz e vende, diminuirá a pobreza entre os moradores.

“Você resolve o problema da pobreza quando estimula as pessoas a consumirem o que elas produzem, se cria um território da solidariedade”, afirma Melo em entrevista por telefone ao Solidare.

Melhorar a vida no Conjunto Palmeiras e região é a razão de ser da moeda Palmas. Ela é aceita por estabelecimentos comerciais locais credenciados, que atualmente somam 240. Como se consegue a Palmas? Fazendo um empréstimo no banco comunitário, sem juros, ou trocando reais por Palmas, também no banco. Além disso, o próprio banco paga parte dos salários dos funcionários com a moeda. Algumas lojas dão desconto para compras com Palmas em vez de reais, segundo Melo. A moeda é indexada em reais. Cada Palma vale R$ 1.

O banco foi criado em 1998. De acordo com o coordenador Melo, uma pesquisa mostrou que, naquele ano, apenas 20% dos moradores consumiam no próprio bairro. No ano passado, esse percentual já estava em 93%. Isso ajudou a gerar mais empregos nas empresas do Conjunto Palmeiras e região, em um círculo virtuoso que acabou beneficiando os próprios moradores.

solidare - bancopalmas foto1 O número de mercadinhos, lanchonetes, empresas de serviços cresceu bastante, segundo Melo, assim como a produção local. São fabricados peças de artesanato, confecção, produtos de culinária tais como doces, pães e bolos, artigos de couro como sandálias e sapatos, objetos de decoração e utilidade doméstica em argila, acessórios como bolsas e bijuterias. A estimativa do banco Palmas é que a movimentação da moeda Palmas seja de 300 mil Palmas mensais, equivalente a R$ 300 mil.

Mas a atuação do Banco Palmas não se resume à moeda. Além de crédito ao consumo, o Banco Palmas dá crédito para a produção, também sem juros, atua como correspondente bancário em um convênio com a Caixa Econômica Federal (Caixa), paga o Bolsa Família para 3.600 pessoas da região e oferece outros produtos financeiros, como seguro.

PARA COMEÇAR A SONHAR

Todas as ações têm fim social, não de lucro. Um exemplo é o crédito para a produção. Um dos focos é oferecê-lo a mulheres que recebem o Bolsa Família para que elas encontrem uma forma de gerar renda com seu trabalho.

Melo conta que uma pesquisa descobriu que entre essas 3.600 mulheres, 70% nunca haviam ido até praia, apesar de morarem em uma cidade como Fortaleza, com um belo litoral, e 90% nunca haviam ido ao cinema, apesar de o município ter várias salas.

“O nível de exclusão é gigante. A miséria algema a cabeça da pessoa”, diz Melo.

Bem antes de dar a elas dinheiro para o seu negócio, o banco faz outro tipo de trabalho com essas mulheres. Elas são levadas ao teatro, à praia, ao cinema, para saírem um pouco da realidade em que vivem e passarem a sonhar.

Depois disso é que vem a educação financeira, o ensino de uma profissão, a concessão do crédito e a montagem do negócio acompanhado pelo banco. Além disso, há a oportunidade de comercialização dos produtos confeccionados em uma feira que é promovida mensalmente pela instituição.

“Todo ser vivo é produtivo, tem capacidade extraordinária de produzir. Existe uma extrema capacidade produtiva em meio aos mais pobres”, afirma Melo.

Outro trabalho que o banco faz é com os jovens, mantendo um laboratório de inovação e tecnologia voltado para economia solidária. No local, eles são incentivados a produzir tecnologia, criar produtos como, por exemplo, aplicativos, e os comercializar.

O INÍCIO

Mas de onde veio tudo isso? Conta Melo que o Conjunto Palmeiras se formou com uma desapropriação de terras ocorrida na década de 1970. Os moradores eram pescadores e viviam nos arredores da praia de Iracema.

Com a desapropriação, eles foram deslocados para a região onde hoje está o bairro. Mas o local era distante de tudo, em Fortaleza, e a própria comunidade começou a fazer, então, mutirões para criação de ruas, escolas, creches praças.

No final da década de 1990, os moradores começaram a comprar casas fora do bairro e se mudar. Foi então que surgiu, entre eles, a ideia de criar algum projeto que gerasse renda e mantivesse as pessoas na comunidade. O Banco Palmas foi aberto, servindo de modelo para os demais bancos comunitários que surgiram depois no Brasil. Mais adiante foi criado o Instituto Palmas, para coordenador todo o projeto e estimular iniciativas semelhantes.

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