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Campo brasileiro, um mar de sangue

Campo brasileiro, um mar de sangue

Joel Santos Guimarães

Se o sertão vai virar mar, ninguém sabe. Mas o campo brasileiro já está alagado de sangue, fruto da violência do agronegócio, ação de madeireiras e mineradoras contra os trabalhadores rurais e quilombolas que lutam por um pedaço de terra ou simplesmente para terem acesso à água.

Além disso, de acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), os latifundiários também trabalham incansavelmente para expulsar os povos da floresta da pouca terra que ainda lhes resta.

Este quadro de horror, pintado por centenas de assassinatos, torturas , estupros, ferimentos em milhares de camponeses, camponesas, crianças e índios  é revelado pela Comissão Pastoral da Terra CPT, no estudo “30 anos dos conflitos no campo- Brasil”.

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Nesse levantamento, a CPT mostra que  os conflitos aconteceram em 566 localidades, em vários regiões do País,e envolveram, em média, anualmente, 41.593 famílias,com 12.692 famílias despejadas,outras 2580 expulsas das terras que cultivavam.

De acordo com a CPT, nesse período, o Brasil protagonizou 28.805 conflitos no campo (por terra, água e questões trabalhistas). Nos últimos 30 anos, os conflitos fundiários envolveram mais de 19 milhões de pessoas.

E o resultado  disso demonstra claramente o clima de violência imposto pelos grandes grupos econômicos que atuam no campo, muitas vezes com o apoio da própria polícia e de pistoleiros, contra os camponeses, índios, quilombolas e todos aqueles que ousam desafia-los.

Em nota, divulgada em agosto do ano passado, a diretoria e a Coordenação Executiva da CPT disse esperar “que o sangue destas mulheres, dos trabalhadores, quilombolas e dos indígenas que tombaram diante da ganância do capital, provoque uma profunda reflexão e ação imediata de nossos políticos, que jogaram na lata do lixo a reforma agrária e a regularização dos territórios tradicionais.”

Triste recorde

cpt conflitos no campoSegundo a CPT, o Nordeste  foi a campeã dos conflitos fundiários entre as regiões geográficas dp Brasil.

De 1985 a 2014, a região foi palco de 10.488 conflitos fundiários, o que representou 36% do total registrado no período. Em seguida, vem a região Norte, com 7.770 conflitos ou 27% do total.

O  Centro- Oeste e o Sudeste representaram 13% e 15%`dos conflitos no campo registrados nos últimos 30 anos.

Para a CPT, o fato do Nordeste  ter se destacado em relação as demais regiões pode estar associado a intensidade dos conflitos por água em tempos de seca

No período analisado os conflitos no campo nessa região deixaram  9.736 pessoas feridas. A pesquisa da CPT revela ainda que o Nordeste ocupou o segundo lugar na quantidade de assassinatos registrados nos últimos 30 anos. Foram 474 vítimas s  ou 25% do total registrado no País.

Vozes da seca

O estudo da CPT explica que a seca e o acesso a água sempre  estiveram presentes  nos conflitos fundiários da região Nordeste.“ Esse, talvez, seja o fator que mais diferencia os conflitos da região quando comparados com as demais”, revela a pesquisa da CPT acrescentando ainda  que em anos como 1.987 e 1990 conflitos em tempos de seca se destacaram aos pela posse e uso da  terra.

Para a CPT, a condição climática associada a carência de políticas públicas efetivas  durante décadas provocou êxodo de milhares de camponeses para outras regiões do País. Fato que  abriu precedentes para outras formas de conflitos, por meio do trabalho escravo ou infantil.

Norte violento

O levantamento da CPT revela ainda que a região Norte no que diz  respeito aos casos extremos de violência.lidera as estatísticas no período estudado. Foram 775 vítimas ou 40% do total.

Realidade essa associada a criminalidade nas áreas de garimpo,apropriação de terras indígenas e ribeirinhas. Alem disso, segundo a CPT, “as relações de poder impostas pelo Estado, através da repressão policial e do próprio latifundiário e de grandes empresas são mais intensas na região.

De acordo com o levantamento da CPT, apenas  o Pará registrou 645 mortes por conflitos no campo entre 1985 e 2013. O número é quase cinco vezes maior que o registrado pelo segundo estado no ranking de assassinatos por questões fundiárias, o Maranhão, com 138 casos no mesmo período.

A coordenadora nacional da CPT, Isolete Wichinieski, afirma que os números de morte por disputa por terra no Pará também são superiores aos registrados em toda a Região Nordeste, composta por nove estados e que contabiliza 424 vítimas no período.

O cerne da questão

Para a professora do CPDA/UFRJ, Leonilde Servolo de Medeiros Sarvolo de Medeiros, os dados sobre conflitos fundiários e violência no campo “ indicam um padrão que é constitutivo da nossa história e cujo cerne é o acesso a terra.

A pesquisadora lembra que  as disputas desse bem revestiram-se de diversas formas ao longo do tempo, “mas sua raiz está no processo de mercantilização da terra em equivalente de mercadoria e, portanto, na criação de condições para sua livre compra e apropriação de renda fundiária.

Leonilde  entende ainda que essa mercantilização subjuga e tende a diluir ou os significados  dados a terra pelos que nela vivem.

 

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