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‘A economia solidária convive com o capitalismo e pretende ser mais vantajosa do ponto de vista humano e econômico’, diz pesquisador

‘A economia solidária convive com o capitalismo e pretende ser mais vantajosa do ponto de vista humano e econômico’, diz pesquisador

André Ricardo de Souza, presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores de Economia Solidária (ABPES),revela quais serão os principais temas discutidos durante o I Congresso de Pesquisadores de Economia Solidária (CONPES), que começa hoje

Por Joel Santos Guimarães

A economia solidária é uma realidade no país e, cada vez mais, é vista como uma “outra economia possível”. Por ser um fenômeno econômico e social, vem despertando o interesse de pesquisadores acadêmicos. Os estudos buscam entender a economia solidária sob diversos aspectos, por exemplo, a prática da autogestão, relações de gênero, desenvolvimento territorial e políticas públicas.

andré são carlos economia solidaria

Segundo o professor André Ricardo de Souza, presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores de Economia Solidária (ABPES), os resultados mostram permanência e também avanço, embora com grandes dificuldades, dos empreendimentos econômicos solidários no Brasil. Isso se dá mediante apoio de órgãos públicos e de entidades que compõem o movimento de economia solidária.

Souza é um dos responsáveis pela organização do I Congresso de Pesquisadores de Economia Solidária (CONPES), que tem como tema “Desafios Globais do Trabalho com Mediação Solidária” e que teve início hoje, quarta-feira (17/6), no campus da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). É autor do livro Os laços entre igreja, governo e economia solidária (EDUFSCar, 2013) e organizador com Paul Singer de A economia solidária no Brasil (Contexto, 2000).

Em entrevista ao Solidare, Souza, doutor em sociologia pela USP e docente do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar, revela quais são os principais temas que serão discutidos durante o CONPES.

Solidare – Qual o objetivo do CONPES?

André Ricardo de Souza – Como seu nome já diz, trata-se de um primeiro Congresso de Pesquisadores de Economia Solidária, pretendendo reunir trabalhos investigativos sobre essa temática, desenvolvidos por pesquisadores atuantes, dentro e fora das universidades.

Solidare- Entre os temas que serão tratados está o cooperativismo. Qual a importância dessa atividade para a economia solidária?

Souza – O cooperativismo autogestionário, ou seja, guiado por princípios igualitários e democráticos, tem papel central na economia solidária. Trata-se de um resgate do cooperativismo surgido na Inglaterra, ainda na primeira metade do século 19, porém adaptado aos ditames do mundo contemporâneo.

Solidare – Que tipo de pesquisa vem sendo feita, quais os objetivos desses estudos e resultados já obtidos?

Souza – Sobre economia solidária, há pesquisas abordando diversos temas, dentre eles: autogestão, relações de gênero, desenvolvimento territorial e políticas públicas. Os resultados vêm mostrando permanência e também avanço, embora com grandes dificuldades, dos empreendimentos econômicos solidários, mediante apoio de órgãos públicos e de entidades que compõem o movimento de economia solidária.

Solidare – Qual é o papel das universidades para o desenvolvimento da economia solidária? Poderia citar alguns exemplos?

Souza – As universidades exercem papel destacado, não apenas por serem o principal lócus de produção de conhecimento científico sobre economia solidária, mas também pelas atividades de extensão voltadas a experiências comunitárias de atividade econômica segundo os princípios da autogestão. O maior exemplo é o da Rede de Incubadoras Tecnológica de Cooperativas Populares, presente em diversas instituições universitárias espalhadas pelo país.

Solidare – O CONPES terá a participação de pesquisadores de outros países. Qual é a importância disso? Que contribuição poderão dar à economia solidária no Brasil e no mundo?

Souza – A economia solidária é um fenômeno internacional, tendo felizmente o Brasil um papel destacado no impulso dela. Pensá-la como algo presente em diversos países, como contribuição para um outro modelo de globalização que não seja pautado pela desigualdade e pela exclusão social, é um desafio e um dever para quem se dedica a economia solidária, do ponto de vista científico e também político. Por isso é muito importante reunir pesquisadores de diversos países. Entre palestrantes e expositores de trabalhos, teremos no CONPES representantes de Argentina, França, Espanha, Portugal e Uruguai.

Solidare – Outro tema que será discutido será o das políticas públicas de geração de renda. O que existe no Brasil a respeito?

Souza – Há políticas públicas em níveis municipal, estadual e, principalmente, federal, que vêm conduzidas sobremaneira pelo Ministério de Desenvolvimento Agrário e pelo Ministério do Trabalho, onde está instalada a Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES). Elas implicam destinar recursos e apoio técnico para que empreendimentos coletivistas sejam formados e prossigam em atividade, no campo e na cidade.

Solidare – Que resultados práticos já foram obtidos? E, se for o caso, o que é possível melhorar? Qual tem sido a participação da pesquisa com relação às políticas públicas para a economia solidária?

Souza – Há feiras de economia solidária e redes de empreendimentos solidários, contando com apoio do governo federal, estando entre elas a Cooesperança, uma cooperativa de segundo grau composta por vários grupos da região de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Solidare – Mas qual é a contribuição da pesquisa para a economia solidária?

Souza – As pesquisas contribuem para o diagnóstico e, consequentemente, para o aperfeiçoamento dessas iniciativas.

Solidare – Qual é a sua avaliação dos empreendimentos econômicos associativos na América Latina e Europa?

Souza – Embora haja uma história da autogestão enquanto reivindicação do movimento operário, sobretudo na Europa, o fato é que a economia solidária enquanto conjunto articulado de experiências empíricas ainda é algo recente, tendo no Brasil uma história de pouco mais de duas décadas. Na Argentina e na Venezuela, a articulação das iniciativas é ainda mais recente. Na Europa, o debate é mais adiantado na França e na Espanha, sendo ainda limitado nos demais países. Enfim, há muito ainda para avançar, globalmente, falando.

Solidare -Qual a importância da SENAES ?

Souza – A SENAES é por excelência o órgão público brasileiro dedicado à economia solidária, tendo sido emblematicamente criado no primeiro ano do governo de Lula, em 2003. Participa do movimento de economia solidária, tornando públicas as suas demandas.

Solidare – E o que a SENAES representa?

Souza – Ela representa a indicação de um rumo diferente de desenvolvimento econômico, que tem como cerne a inclusão de pessoas, sobretudo aquelas com mais dificuldade de inserirem no mercado de trabalho porque são consideradas idosas, deficientes e suspeitas, como são os casos de ex-detentos e também de usuários do serviço público de saúde mental.

Solidare – Qual o saldo obtido pela economia solidária desde que ela foi implantada no país?

Souza – A economia solidária é ainda pequena, do ponto de vista econômico, mas de fato já bastante grande em termos de mobilização de pessoas desejosas de outra forma de desenvolvimento econômico e social. Rapidamente, ela se constituiu como um movimento nacional e também como uma política pública federal, estando presente também em diversos órgãos públicos locais.

Solidare – Cite alguns exemplos.

Souza – Muitas pessoas participantes dos empreendimentos econômicos solidários, sobretudo mulheres, têm retomado estudos, tornando-se politizadas, obtidos ganhos de autoestima e até abandono de alcoolismo, como aquelas integrantes de cooperativas de coleta seletiva, por exemplo. É de fato algo que aponta um caminho relevante do ponto de vista civilizatório.

Solidare- Na prática, a economia solidária tem alcançado resultados que permitam afirmar que outra economia é possível? É uma alternativa viável ao capitalismo? Por quê?

Souza – O fato de empreendimentos econômicos solidários terem permanecido, mesmo no período de crescimento econômico e ampla oferta de empregos (entre 2004 e 2013), mostra que a economia solidária não é apenas um fenômeno decorrente de crise econômica, quando as pessoas não têm outra alternativa de ocupação. Aos poucos, com dificuldade, sim, mas também com perseverança, tais empreendimentos vão conseguindo se manter e até ao lado daquela do emprego assalariado.

Solidare – Mas a economia solidária é uma alternativa viável ao capitalismo?

Souza – A economia solidária vem convivendo com o capitalismo, desenvolvendo-se gradualmente para ser fazer mais vantajosa, não só do ponto de vista humano, mas também econômico em relação a ele. Esse é caminho trilhado e que há muito mesmo ainda a percorrer.

 

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